Macio Figueiredo, secretário municipal de Saúde, e Marçal Filho, prefeito de Dourados, no Hospital da Vida. (Foto: Reprodução/PMD)
O secretário de Saúde na gestão do prefeito Marçal Filho (PSDB), em Dourados, o enfermeiro Marcio Fernandes, já havia antecipado a lideranças que a chikungunya causaria mortes nas aldeias durante uma reunião no início de março.
A informação é do presidente do Condisi (Conselho Distrital de Saúde Indígena) de Dourados, Tiago Aquino, que relatou ao Jornal Midiamax que o encontro, realizado na Secretaria Municipal de Saúde, reuniu representantes do Poder Público municipal, estadual e saúde indígena. A agenda buscava deliberar ações para conter o cenário que se tornou epidêmico semanas depois.
A primeira morte para a chikungunya na maior cidade do interior de Mato Grosso do Sul foi confirmada dias após a reunião. Até o momento, cinco óbitos foram registrados na aldeia — três idosos e duas bebês de 1 e 3 meses.
Segundo o conselheiro, o município não implementou medidas preventivas eficazes antes do surto. Até o momento a cidade já confirmou 1.198 casos, um aumento de 85 em 24 horas. De casos prováveis, na quarta-feira (01) eram 2.233 e hoje já são 2.382, alta de 7%. O informe também aponta que a taxa de ataque aumentou de 8,46 para 9,02.
Foi o Condisi que levou ao MPF (Ministério Público Federal) a denúncia sobre a situação na reserva. A partir de então, o órgão determinou diligências e pactuou uma carta-compromisso envolvendo gestores públicos.
O advogado aponta que a falta de saneamento básico e água obrigam os moradores a armazenar água em recipientes improvisados, promovendo criadouros para o mosquito Aedes aegypti.
Além disso, a coleta de lixo é descrita pelo representante indígena como insuficiente. Sem percorrer as residências de uma população estimada em 20 mil pessoas, a coleta de lixo acontece por meio de conteiners distribuídos em alguns pontos da reserva.
Resposta tardia e falhas operacionais
A reação do poder público é classificada por Aquino como reativa. Embora mutirões de limpeza tenham sido realizados, o representante afirma que os resíduos não foram totalmente recolhidos pelo município.
O uso do “fumacê” também apresenta limitações: as ruas de difícil acesso impedem a passagem dos veículos em toda a extensão da aldeia e não houve campanha educativa para que os moradores mantivessem as casas abertas.
“Não teve nem a educação pública para a comunidade. […] O fumacê tem que deixar a casa aberta para entrar lá e, quando está passando, as portas estão fechadas porque eles não entendem”, afirmou Aquino.
Outro ponto crítico é a destinação de recursos e equipamentos. De acordo com o conselheiro, 150 armadilhas para o mosquito foram direcionadas exclusivamente para a área urbana, sem unidades para a comunidade indígena.
A situação de emergência, que agora vai permitir a dispensa de licitações, teve reforço com o aporte federal de R$ 1,3 milhão da União para a Defesa Civil. A aplicação do recurso, contudo, preocupa o conselheiro que pede transparência ativa.
Marçal inerte
Tiago confirmou ao Jornal Midiamax que a administração municipal só mobilizou ações a partir da chegada da Força Nacional. Moradores da reserva ouvidos pela reportagem relatam que somente o Estado e a União é que de fato estão atuando para salvar a comunidade da escalada da doença.
O município, inclusive, deixou de amparar a reserva indígena com agentes de endemias. Enquanto na área urbana, o déficit de servidores mantém 40% da cidade descoberta, na reserva esse percentual é de 100%.
Sem profissionais para visitas domiciliares, fiscalização do controle de resíduos e orientação da comunidade, a União deliberou a contratação emergencial de 50 agentes que já estão em treinamento. A cerimônia de posse dos servidores contratados acontece no próximo sábado (04).
Segundo relatos colhidos pela reportagem, o impacto da epidemia afetou a rotina na reserva indígena. Nas escolas, por exemplo, as aulas foram suspensas devido ao alto índice de infecção entre alunos e professores e à falta de limpeza nas unidades escolares.
Em meio a crise, a prefeitura de Dourados fez, pela primeira vez, uma distribuição de peixes em açude conhecido pela comunidade. A pesca foi aberta nesta quinta-feira (02). Apesar de reconhecer a medida como um socorro às famílias mais vulneráveis, Tiago classifica a iniciativa inédita como política do ‘pão e circo’.
“Por um lado, já que tá todo mundo no meio de uma tragédia, distraí um pouco a cabeça de alguns lá, mas eu vejo que é a política do pão e circo, uma cortina de fumaça. Esse é o povo vulnerável ao extremo. Então chega alguma coisa, pelo menos lá pra ir num peixe. Eu acho que se eu tivesse nessa mesma situação, eu estaria feliz”, afirmou o conselheiro, mencionando a comunidade como decisora de votos em ano eleitoral.
Segundo Tiago, muitas famílias seguem apreensivas e sem saber como reagir diante da crise.
“Estamos sem entender ainda o que está acontecendo. Eu entendo que sou mais esclarecido um pouco, mas tem gente que está sem entender porque nunca aconteceu isso na comunidade. É falta de políticas públicas, ausência de políticas públicas”, concluiu o presidente do Condisi.
Procurada, a Prefeitura de Dourados disse que não iria se manifestar.
Fonte: Midiamax

