Gaeco deflagrou a Operação Infiltrados, que prendeu Hoffman D’Ávila. (Foto: Léo de França, Jornal Midiamax)
O advogado Amilton Ferreira foi preso por suspeita de vazar informações da Operação Infiltrados, deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) em Campo Grande na última quinta-feira (24). A operação prendeu o delegado Hoffman D’Ávila Candido e Souza, apontado como líder do esquema de desvio de drogas na Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico).
No dia em que a Operação Infiltrados foi deflagrada, Amilton representava a defesa do delegado e alegou não ter sido informado sobre o mandado de prisão existente contra o cliente naquele momento. Equipes do Gaeco estiveram na residência do delegado, mas ele já havia saído de casa e não foi localizado. Ele alegou ter saído do imóvel para resolver uma situação pessoal.
Horas depois, quando Hoffman se apresentou, na presença de Amilton, à CGPC (Corregedoria-Geral da Polícia Civil), o advogado afirmou que o servidor estava surpreso com a operação.
Prisão temporária
Conforme apurado pelo Jornal Midiamax, o advogado foi alvo de um mandado de prisão temporária e levado para a Depac-Cepol (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário do Centro Integrado de Polícia Especializada). Ele teria alegado que conversou com seus clientes no âmbito da defesa e negado ter informações a respeito da operação.
Amilton foi preso durante a segunda fase da Operação Infiltrados, denominada Obstructio, que cumpriu um mandado de prisão temporária e dois de busca e apreensão nesta terça-feira (29) na Capital. “Há evidências já materializadas de que ocorreu a comunicação criminosa da ação policial, o que acabou por embaraçar diretamente a investigação do Gaeco sobre a atuação da organização criminosa”, afirma o MPMS.
O cumprimento do mandado foi acompanhado pela OAB-MS (Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional de Mato Grosso do Sul) em decorrência do alvo ser advogado. Diante disso, o Jornal Midiamax acionou a entidade e aguarda um retorno. O espaço segue aberto para manifestações futuras.
À reportagem, o MPMS informou que a investigação está em andamento e resguardada por sigilo legal.
“O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) informa que, no momento, todas as informações passíveis de divulgação constam na nota oficial veiculada em nosso portal.
Por se tratar de investigação em andamento e resguardada por sigilo legal, novos detalhes serão oportunamente informados pelos canais oficiais da instituição à medida que houver autorização judicial.”
O advogado foi levado ao IML (Instituto Médico Legal) para exame de corpo de delito e será encaminhado ao PME (Presídio Militar Estadual).
Advogado nega vazamento de informações
Ao Jornal Midiamax, a defesa de Amilton, representada pela advogada Damares Machado, confirmou a prisão e disse que o cliente nega ter vazado as informações.
“Ele não vazou informações. Ele nega isso, até porque ele não teve essas informações, ninguém avisou ele sobre nada. Mas, como advogado criminalista, é óbvio que a gente imagina o que pode acontecer no decorrer do processo. Até por experiência da própria profissão. E suspeitaram que ele tivesse alertado o cliente a respeito da operação, só que ele não alertou, ele nega essas informações. Se ele tivesse alertado o cliente dele, como suspeitaram, isso não seria crime. Ele não alertou, mas, se tivesse alertado, não seria crime. É inerente à profissão”, afirmou a advogada.
Operação Infiltrados
A Operação Infiltrados, do Gaeco, investiga um esquema de desvio de drogas apreendidas por agentes de segurança, principalmente cocaína. Segundo o MPMS, parte dos entorpecentes seria omitida dos registros ou retirada de depósitos policiais e depois repassada a traficantes para retornar ao mercado ilegal. A investigação começou em outubro de 2025.
A operação cumpriu 24 mandados de prisão preventiva, dois mandados de prisão temporária e 38 de busca e apreensão nas cidades de Campo Grande, Dourados e Terenos.
As investigações foram iniciadas em outubro de 2025, a partir de provas descobertas nas operações Traquetos e Blindspot, que revelaram, segundo o MPMS, a participação de vários policiais em um esquema de desvio de drogas, especialmente cocaína.
Segundo o MPMS, o modus operandi adotado pela organização criminosa consistia no desvio de drogas apreendidas em ocorrências policiais, seja por meio da omissão — nos registros formais — de parte da droga efetivamente arrecadada, seja pela subtração de entorpecentes diretamente do depósito da delegacia.
A droga desviada seria repassada para traficantes ligados à organização criminosa, que seriam responsáveis por reintroduzir a droga no mercado ilícito.
Segundo a investigação, os policiais suspeitos de integrar a organização criminosa se valiam de suas funções públicas exercidas no combate à criminalidade para atuar como fornecedores para o tráfico.
Gaeco aponta que delegado comandava desvio de drogas na Denar
Conforme o documento, as evidências encontradas indicam que, ao menos entre 2021 e 2026, em Mato Grosso do Sul, um grupo de policiais civis vinha se valendo de suas funções públicas para desviar drogas apreendidas e reinseri-las no mercado ilegal.
Eles desviavam as drogas aprendidas, seja por meio da omissão — nos registros formais da ocorrência — de parte da droga efetivamente arrecadada, fazendo com que esse montante não fosse oficialmente contabilizado como apreendido, seja pela subtração de entorpecentes diretamente do depósito da delegacia, com posterior repasse ao traficante Lucas da Silva dos Santos, o ‘LK’.
Segundo o Gaeco, as provas produzidas demonstram que o então delegado “ocupava posição de comando e chancela institucional do esquema, sendo responsável por viabilizar a atuação da organização criminosa, da qual é um dos principais beneficiários”.
Em um dos áudios gravados pelo traficante ‘LK’, as investigações apontam que Hoffman é mencionado por meio do apelido ‘Careca’. Na data da conversa, o servidor público teria ficado exaltado com o fato de ter perdido um veículo no qual eles, naquele momento, queriam instalar um GPS para acompanhar a carga.
“Ô, mãe, centraliza tudo em mim aqui os áudios e vai me posicionando. É, o CARECA tava meio exaltado aqui, isso aí a gente já contornou já, beleza, pode ficar tranquilo aí, nós estamos por aqui, nós estamos caçando a carreta, vamos confiar que vai dar bom, vai conferindo aí o que o chegado vai falando aí, se você quiser que eu fale com ele também, você sabe que eu falo de boa, então pode ser qualquer coisa, você me passa contato dele, beleza, mas vai fazendo a ponte aí, fechou?”
Conforme o Gaeco, o teor do áudio sugere que o indivíduo identificado como ‘Careca’ ocupava a posição de ascendência hierárquica no grupo, justamente o que acontece com Hoffman, “que é calvo e é Delegado de Polícia, chefiando assim a equipe dos policiais civis”.
Ou seja, para o Grupo de Atuação Especial, o delegado participava diretamente do esquema, inclusive dando ordens aos demais, voltado à apreensão e ao posterior desvio da droga que seria transportada no veículo mencionado no áudio de ‘LK’, confirmando seu papel de destaque na organização criminosa.
Fonte: Midiamax

